Poesias

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vênus

Uma cachorrinha vai passear
com sua velhinha;
vai serelepe,
usa botinhas.
Leva no pescoço
um belo colar
de vivas pedrinhas.
Anda por aqui,
anda acolá
guiando sua dona
pelas ruazinhas.
A cena se repete
em toda tardinha
que faça bom tempo
pois sua velhinha
merece cuidados,
lambidas são dadas
por pura atenção. 
Ouvimos latidos
se um outro cão
também puxa ali,
o dono pela mão.

Marianne Lee

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Necessária


Falta luz.
Falta água.
Falta comida.
F a l t a!
Falta um ponto e
falta mais.
Falta coragem.
Falta doce.
Faltam laços.
Falta um rim.
Falta o riso.
Falta vir.
Faltam dias.
Faz falta aqui.
Sinto falta.
Falta ver.
F a l t a!
Falta tema.
Falta nexo.
Falta azul.
Falta amor.
Faltam horas.
Falta rima.
F a l t a!
Falta gosto.
Falta língua.
Falta sangue.
Falta pele.
Falta um tanto.
Ah falta!!
Palavra ordinária!
-  E se ela sumisse?
-  Não me faria falta alguma.

Marianne Lee

domingo, 12 de junho de 2011

Versos vazios

                              Á  Bentinho e Capitu

Quando compus estes versos vazios
embebia-me em tédio e rancor;
sem amigos, sem canto, sem hora
de sonhar, de viver, sem calor.

Calor que de ninguém recebo,
e não remeto, pois não tenho a quem;
nem carinhos, nem frases amenas.
Estou ciente que não sou ninguém.

Ninguém só no mundo vive,
tem que alguém lhe dedicar:
poemas e beijos inebriantes.
Sempre ter alguém pra amar!

Amar, querer só alguém...
Estes versos eu compus em memória
de um ser digno a quem eu devote
todo o amor. Existe maior glória?

Existe maior glória que amar
um olhar provocante, fugidio?
Eu pensava em alguém, em você,
quando compus estes versos vazios.

Marianne Lee

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Eu ,
    Manuel
              Bandeira ,
                             te
                               amo!

Ma
    ri              e
      a          e
        nn    L
            e 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Cinema mudo

Por uns tempos te amei... paixão, loucura.
Cega fiquei de amor e encantamento.
Perdi completa noção do fictício,
e do real, por uns tempos.

Por uns tempos te quis e a amargura
de tê-lo somente em pensamento;
deixou-me sem rumo em meio à solidão,
e no vazio, por uns tempos.

Por uns tempos chorei a desventura
de não poder te ter ao meu contento.
Te ver partir sem lágrima, sem sorriso,
me fez chorar, por uns tempos.

Por uns tempos sonhei com tal ternura,
todo ardor e o deslumbramento
que possa haver num coração febril,
só por uns tempos.

Marianne Lee

sábado, 14 de maio de 2011

Metamestre

Gosto pelas letras – O sabor das palavras.
Uma pedra é que começa sua jornada.
Se a pálpebra oscila e o coração arde,
tem pela frente a imensidão da tarde.
Anda pensante, a mão quer a pena;
vai diletante e com um sorriso acena.
Ossos do ofício de uma escrita plena.

Bem, não duvidem do que aqui escrevo,
enquanto conto nos fadados dedos
rascunhos feitos e depois rasgados;
nada concisos, ao mestre ofertados.
Assim cogito, e no entanto lá fora,
risos me dizem que ele passa agora.
Dons não faltam em seu olhar sisudo;
onde é Quixote também é Casmurro.

Gosto pelas letras – O sabor das palavras.
A prosa e a poesia seguem ritmadas,
lugares novos em sua densa escrita;
vultos, silêncios? - Não, tudo ali grita!
Assim sabemos não ser absurdo:
onde é Quixote também é Casmurro.
 
Kafka esculpiu no papel Samsa,
ritmo difuso em obscura dança,
ao mundo deu este disforme humano.
Uns seguem mitos e outros os poetas,  
seguimos Krause e sua ousada meta:
- Então, duvidem de quem seja o plano!

Marianne Lee

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ou

     No amor, há duas faces fatais,
     que o torna, que o faz
     ser irônico sem par:
      Ou é cedo demais pra esquecer,
      ou é tarde demais pra lembrar.

Marianne Lee

domingo, 17 de abril de 2011

Ao imitador


Neste momento
o teu sorriso,
dentes nítidos,
olhos límpidos;
tenso, incerto.
Paraíso lascivo
em sete versos.


Marianne Lee

Jason Lee

L'Homme le plus joli que je connais,
il a de longs cheveux noirs.
La poitrine dans des flammes.
Les yeux comme des ombres noires,
Se passionnent.

L'Homme plus beau que je connais ;
ils ont des mains douces, agiles doigts.
Il parle doucement presque en murmurant,
timide comme le soleil
d'automne.

L'Homme le plus délicieux que je connais ;
il semble chocolat aussi sucré.
Il a des dents jolies et quand veut rire
le monde crée une nouvelle
romance.

Ce coeur que j'ai dans moi,
reste étonnement toujours ;
parce que Jasão n'est pas
seulement un Homme.
C'est un mythe !

Marianne Lee

Fuga

Eu fui procurar sossego
por entre a relva macia,
como um animal banido
só quis sentar-me vadia;
a brincar com as falenas
e me erguer assustada,
pensar ter ouvido algo
e não ter certeza de nada.

Correr, tropeçar, cair
e não me machucar?
– Talvez.
A vida que é minha agora
não foi a vida que eu quis.
Só quero por entre rosas,
entre as palmeiras crescidas
no meio das castanholas,
por entre as águas saídas
de uma bela cachoeira
molhar-me e esquecer a vida.

A vida que eu não quis
e que não me fez feliz.
E a noite ainda na mata
qual a coruja esperta,
olhar vigiando os cantos
com o corpo sempre alerta.

Armar a minha barraca
onde a brisa fresca é.
Talvez bem dentro do bosque
ou em cima de um sopé.
Tornar os meus olhos verdes
só em contemplar a mata
e dormir sem sono algum
dentro da minha barraca.
Pra me defender do vento.
pra me proteger da chuva,
igual a um animalzinho
que é como gente miúda.

E onde a visão não alcança,
ver colhida a esperança
e talvez tornar feliz,
a vida que eu não quis.

Marianne lee

Esquinas


Choveu pela manhã à gosto, é o meu outono.
O dono de um olhar, pardo cão sem dono
como um gato na espreita. Veja!
Tão escuro esse olhar, tão belo e tão profundo;
vigiando as esquinas e inundando o mundo
de anseios, gestos e risos. Eu vejo.

Indômito coração que a noite tumultua.
Sonhos, lassidão, a sensação...
Macia e nua a pele esfomeada.
Uma vez desejei acordar nesses braços
sentir quente coração ao meu
num só compasso - A alma saciada.

Decerto sei que toda a noite insone
deixou-lhe marcas, as pálpebras até pendem.
Sedução ou ironia?
Todos os dias e noites num só dia!
Misto de Deus e homem.

E a vida é tão pequena, tão menina...
           É uma canção!

Marianne lee

                              

domingo, 10 de abril de 2011

Indo

Ando como as pessoas andam.
Não sei cantar ainda, mas canto.
Penso o que a maioria pensa,
o velho cerk na cabeça.
Sou eu que mando no meu sossego.

Viajo num cigarro e na cerveja bem gelada.
Na calada da noite - alta madrugada,
perco o sono. Quis envenenar alguém.
É hediondo pensar assim.

Agora eu quero novidades,
o mundo é  muito antigo pra mim.
Estou na flor da idade.
Pensamentos vazios. Haja tempestade
que me faça ficar em casa!
O teto pode ruir, mas eu não fico!

Vou pescar estrelas,
perder o caminho, o rumo.
Talvez eu volte amanhã
ou não sei quando.
Semana que vem. Quem sabe?
Não vou perder esse navio por nada.
Na calada da noite, alta madrugada.
Eu me mando.  Sumo!

Marianne Lee


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Chão

Pés que se movem

e andam em vão.

Que seguem caminhos.

Que pisam no caos.

Na terra batida,

no asfalto quente.

Passam serelepes,

tantos, pela gente.

De lugar nenhum,

se ir,  se voltar, se..

Perdem-se em veredas.

Lançam-se, ao mar.

Movem-se na noite

ou no sol à pino.

Pés que perdem o rumo, 

pisam no destino.



Marianne Lee

Quente Rio

Estava chovendo mar,
nos rostos contorcidos
lágrimas rolavam da pele,
os olhos secos
e essa chuva de calor
varreu a casa inteira.
Tinha goteira nos móveis,
por toda sala.
Na calada da noite, 
o ventilador quente de sol japonês;
porque lá sei que é dia
e eu pobre Maria sem graça
encharcada de suor,
mangas arregaçadas.
Viva a praça! 
No Rio faz mais de quarenta!
Lembro da janela paulistana
da cama fria
e a saudade aumenta.

Marianne Lee

Uma manhã qualquer

Hoje pela manhã - estava calma!
Uma manhã de novembro radiosa.
As rosas exalavam no jardim
e as falenas pairavam sobre as rosas.

Eu estava na janela agora a pouco
tomando um café tão forte e doce.
Então esta manhã entrou em mim
como se eu parte dela fosse.

Veio me buscar esta menina;
fada luminosa, fresca, amena.
Me acordou de mansinho, me beijou,
Tocou o meu rosto, a mão serena.

E vi o sol, o vento leve;
pombos na calçada e longe o mar.
Esta manhã de novembro radiosa
eu a copiei - Aqui está!

Marianne Lee

Seo José


                                     Para Drummond

Tenho oitenta anos
e você nem nasceu.
Onde fui tão velho,
você não viveu.

Nos cabelos brancos,
nas rugas da mão.
No coração lento.
Ah! Meu coração!

No andar cansado,
não dormir, comer.
E não ouvir nada ou
quase nada ver.

Eu nasci em 20,
tanto tempo atrás.
Mas, seguir em frente?
O medo assaz.

Marianne Lee

Insônia


                                            À Edgar.

Então numa noite insone
onde os corvos batiam em revoada,
ouvi um grito que vinha da torre
de uma mulher caindo de uma escada.

As mãos sangrentas do duque assassino
pendiam rijas ao lado do corpo.
O olhar vidrado - Atônito, 
a contemplar tão belo ser - Morto!

Estava fria aquela noite e eu
não conseguia dormir ante o frio.
Fui à janela e avistei um vulto
que, da torre, se jogava no vazio.


Marianne Lee

O doce beijo do mundo

Eu não faço poesia.
Nem mesmo sei de onde vem...
Deve ser ela quem me faz,
e isso é só um porém.
A inspiração em mim, soa longe:
traz às vezes alegria
e depois a leva em segundos.
Não me parece magia,
o doce beijo do mundo.

Ao me fazer, eu não sei:
traz bons versos, boa rima.
Mas, não será isto que passa,
assim breve como a vida?
A inspiração em mim soa longe:
traz às vezes a primavera
com suas flores nascidas,
e rosa que desabrocham
Ah! nelas encontro vida!

A poesia me envolve, me ganha
num só momento em que fito o céu.
Não sei ao certo o que me acontece
se vir o sol e seus d´ouros véus.
A inspiração em mim soa longe.
Às vezes beija-me com o pensamento.
Traz coisas novas, renova tudo
e não me deixa um só momento.

Não sei, mas sou poesia.
Digo que sou, porque assim nasci.
A minha inspiração é algo forte,
pois me livra da morte
e fez belos, os dias que vivi.
Digo que vivi, pois não mais sei
se hoje vivo ou apenas sou gesto.
Tudo que sei é que vivo de poesia.
Assim eu quis: quis-me sentir quieto.

Marianne Lee

Semana

Tenho sete dias pela frente.
Toda segunda
e toda segunda eu começo:
acordo e molho o rosto,
escovo os dentes com pressa,
pra trabalhar! Ora essa!

Rio com pessoas desconhecidas.
Conto mentiras.
Engrandeço-me.
Haja ego!

Alma irrequieta, não para.
Corro como quem corre milhas.
Descalça, eu volto na chuva.
Olhos semicerrados,
declamo versos antigos,
se me sinto só.

Tomar café quente,
com queijo branco gelado,
salvo o meu dia na noite,
rezando pros meus pecados
e não são poucos, são caros.

Marianne Lee

Rotina

Eu não acordo mais.
Levanto aos tropeços
e não enxugo a mão
que lava o rosto
e escova os dentes.
Depois eu acordo,
a casa fria!
E correr contra o tempo
o relógio da orgia,
cotidiano.
Não conto os degraus
porque me perco, apenas desço.
Não quero mudar o mundo.
Não quero essa idéia em mim.
Eu não levanto mais.
Tudo que faço é jogar,
apostar alto, virar o jogo
e perder ou ganhar
já não importa.
Mostrar as cartas,
as mãos vazias, as marcas,
vil rotina.

Marianne Lee