Poesias

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sábado, 23 de julho de 2011

Vox

Quando se tem uma porta que não abre.
Quando se tem um amigo e não se sabe.
Quando se tem um coração que nada cabe.
Quando pensas e ainda assim não ages.
Quando sonhas e me diz: viaje!
Ousa tentar e a vida interage.
 - Que não falte luz e a água não acabe!

Quando é seco o lago ou quando é cheia a margem.
Quando se é deserto e o mundo a miragem.
Mesmo quando rimos do polaco padre.
Se o seu futuro está predestinado
porque teve um filho que não foi gerado
e você se esconde num quartinho escuro
cigarro no meio de lágrimas chovendo.
Temendo o futuro ou arrependendo-se.
- É duro, Amy!

R.I.P

Marianne Lee

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Outro cavaleiro

Seo Josino levanta cedo com o sol
pega o seu melhor cavalo - Bâchero.
E vai em busca do matagal, da roça.
Peitando em pau, pedra e cobra surucucu.
Volteia por tudo lá.
Olha o milho, mexe no feijão
que começa a florir,
nas vagens de fava ainda verdes.
Olha o arrozal e perde o olhar
naquele mundão de roça.

O matinho embirra de nascer,
rasteiro e teimoso como só ele.
O Seo Josino pega a enxada,
mais parecendo um cavaleiro medieval
em sua armadura de suor e raça.
E qual uma lança, ele mete a enxada
no peito do inimigo. Eita matinho danado!
O inimigo morre aos pouquinhos, devagar
em meio à multidão que os assiste:
O sol a pino, a passarada, a plantação.

À tardinha, forte e firme,
ele pega o Baio – brinca.
Passa a perna e vai pro rancho
do outro lado do rio.
Deixando atrás de si a poeira,
um belo pôr-do-sol e o roçado.
Vai a galopes o bâchero,
amigo velho de muitas paradas.
Por cima de pau, pedra e cobra surucucu.
O cavaleiro da roça realiza mais um dia
de luta e glória.


Marianne Lee

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Veloz

Eu gosto de acordar cedo,
pegar minha magrela azul.
Sair com destino certo
dentro do vento,
rumo ao sul.

O caminho é longo.
O sol é forte!
Vamos juntas,
embaladas
pela música
que nos move
na manhã ensolarada.

À tarde quando voltamos,
o sol nos olhos - dourados.
Na ágil magrela azul
o coração encantado,
mas calmo.

O vento forte no rosto
no dia quase acabado;
o cansaço rege o corpo
nos pés meu cavalo alado.

Marianee Lee

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Início

No início havia um quintal
igual ao de toda casa,
e alguma asa voando,
de um pássaro
no retrato da parede – Abstrata pintura,
moldura intacta.

Havia um parque em frente
e o sol poente a deslumbrar as ruas
e os pássaros da praça,
folgadas pombas.

Havia um casal de velhinhos
a passear de mãos dadas,
caladas mãos e beijos inocentes
coerentes com a paisagem.

Havia um garoto de rosto sardento,
verde olhar. Uma miragem
em cada canto, e no canto da matriz,
a Ave–Maria entoada no órgão grande e negro.
Apego.

No início havia tanto apego,
no falar, nos gestos.
Momentos reais, completos.
No meio de uma frase ou
no meio da rua.
Nua a foto, mas gasta,
se vista de perto.
Abstrata pintura em
moldura intacta
de uma asa sobrevoando
o deserto.

Marianne Lee